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Data: 19/08/2008
Castanha-do-pará/ Palavra de homem(Edilberto Santos)
LEMBRANÇAS DE UM OBIDENSE  -  XVII

 

                               CASTANHA-DO-PARÁ   /   PALAVRA DE HOMEM

 

                                                       

 

 

                                   Estes episódios estão originariamente descritos às Págs., 122 e 123 do livro Lembranças de um Obidense, e que assim diz:    {      Houve um ano em Óbidos, que ninguém conseguia vender seus estoques de Castanha-do-Pará, pois o mercado estava retraído, sem comprador,  que  estavam especulando para promover a queda dos preços, para então comprar a Castanha-do-Pará a preços aviltados e obterem bons lucros.

                                   Resolvi entrar na briga e comprei Castanha-do-Pará de quase todos os fornecedores de Óbidos, com uma única condição, pagaria todos eles somente no final do mes de janeiro do ano seguinte. Estavamos no mês de outubro e à exceção de somente um fornecedor, todos concordaram em vender-me para receber em janeiro do ano seguinte, pois era melhor vender nessas condições por um preço justo onde todos ganhariam, do que perder toda a castanha coletada, que é produto perecível ou ainda, vendê-la mais tarde a preços irrisórios, com prejuízos.

                                   Depois de já estar com toda a castanha no meu depósito, resolvi então nomear representantes comerciais em Estados consumidores do Sul, Sudeste e Nordeste do País e, pessoalmente, saí a visitar os clientes desses Estados na companhia dos meus representantes, propondo vender-lhes a castanha-do-pará com entrega em outubro/novembro para posterior pagamento, que deveria ser feito somente na PRIMEIRA QUINZENA DE JANEIRO DO ANO SEGUINTE depois naturalmente, das vendas de fim de ano desses clientes, melhor época do ano para vender castanha-do-pará, e que eram na sua maioria, supermercados e atacadistas de gêneros alimentícios. ( A estratégia de vendas montada por meu pai, proporcionou a venda de um produto que estava fadado a estragar ou a ser vendido para as indústrias de castanha a preços baixos, e ainda sem gastar nenhum centavo de seu capital pois que, recebeu dos seus clientes na primeira quinzena de janeiro do ano seguinte e pagou seus fornecedores no final daquele mesmo mês. Este era o PULO-DO-GATO como costumava dizer ).

                                   O negócio foi um sucesso, pois o prazo para pagamento era um convite para se fechar negócio e assim vendi todo o meu estoque de castanha-do-pará, para surpresa de todos em Óbidos, já que o mercado continuava retraído e eu embarcando minha castanha. O fornecedor que não me vendeu seu estoque, foi obrigado a vendê-lo no final do ano, por 1/3 (um terço) do preço que eu havia comprado de seus colegas .

 

                                   PALAVRA  DE  HOMEM

 

                                   Um certo comerciante em Obidos, se vangloriava de ser correto nos seus negócios porque tinha  palavra, e que uma vez empenhada sua  palavra não voltava atrás; que sua palavra  valia mais que muitas assinaturas etc.. etc....

                                   Certa vez, esse mesmo comerciante quando ajudava pessoalmente a descarregar seu caminhão com castanha-do-pará em meu depósito a ele alugado, resmungava muito aborrecido, dizendo que daquela data em diante NÃO TERIA MAIS PALAVRA.

                                   Resolvi então provocá-lo, e perguntei se então ele, daquele dia em diante, deixaria de ser homem. Engoliu em seco, mas ficou calado sem me contar o motivo daquele aborrecimento todo, e somente dias depois fiquei sabendo o porque de tanta raiva com a  palavra empenhada.

                                   A razão foi a seguinte: Ele e mais dois comerciantes amigos seus, compravam castanha-do-pará a granel, em sociedade, firmada somente  na palavra , e as armazenavam em um único depósito e em um único lote, ficando assim fisicamente misturadas as castanhas da sociedade, e apenas anotado em um caderno, a quantidade de castanha  que pertencia a cada um dos sócios, para que no momento da venda do lote todo, conseguissem bom preço face a grande quantidade de castanha amealhada.

                                   O negócio ia muito bem, enquanto o preço da castanha estava em alta no momento da venda que era, invariavelmente, no final do ano.

                                   Naquele ano, porém, a castanha baixou de preço no final do ano e um dos sócios do comerciante que primava pela palavra empenhada, havia vendido parte do lote de castanha-do-pará no meio do ano, POR UM BOM PREÇO, acima do praticado em dezembro.

                                   Sabedor dessa venda a bom preço, e com a castanha ainda em baixa, o homem da palavra foi ter com seu sócio , para dividirem por três o lucro da castanha vendida no meio do ano, pois que era castanha da sociedade, pelo que recebeu como resposta, que a castanha vendida no meio do ano por um bom preço pertencia somente a ele, já que era a sua cota na sociedade que ele havia vendido, e que o restante da castanha que estava no estoque , a preços baixos,  pertencia aos dois outros sócios e disse mais, daquela data em diante, estava desfeita a sociedade e, como era dono do galpão onde estavam armazenadas as castanhas, aproveitava e pedia sua desocupação, o que o levou a alugar o meu galpão.

                                   Assim nasceu mais um homem sem palavra".

 

                                   Até o próximo episódio.

LEMBRANÇAS  DE  UM  OBIDENSE  -  XVIII

 

                       

                                       UM   JUIZ   NA   CIDADE

 

                                                                       Por: edilbertodonsantos@gmail.com

 

 

                                   (Este Episódio está narrado às págs., 94/95 de seu livro e, como já anteriormente explicado, o seu texto está entre aspas e as minhas observações estão entre parênteses, explicação que achamos interessante fazer, para que não se confunda o que foi dito por ele e o que é dito por mim. Assim sendo, vamos ao texto).

                                   "    Como já disse no início, o turbilhão de lembranças leva-me agora de volta a Óbidos, fazendo-me retroceder no tempo. Eu já era casado, quando chegou na cidade um Juiz de Direito que aterrorizava a todos.

                                   Um certo dia, mandou-me chamar para ir ter com ele no cartório e com hora marcada. Como eu estava certo de não ter feito nada de errado, fiquei tranqüilo e no dia e hora marcados, ao chegar no cartório onde o Juiz despachava, pois não existia Fórum na cidade, aguardei um pouco para ser atendido, enquanto ouvia piadas maliciosas. Muitas pessoas já sabiam do convite e do assunto, menos eu.

                                   Quando me apresentei ao Juiz, este foi logo dizendo: então você é o Cornélio Santos ? confirmei, e ele prosseguiu: você tem uma funcionária menor de idade ? Respondi que sim e ele perguntou quanto eu pagava para ela, ao que respondi que pagava o salário mínimo integral. Ele então retrucou, querendo saber porque eu pagava o salário mínimo integral para uma funcionária  menor de idade.(era comum pagar menos de um salário mínimo para menores de idade).Esclareci-lhe dizendo que assim fazia porque a funcionária realizava o mesmo trabalho que os outros funcionários maiores de idade, além do que era muito eficiente nos assuntos pertinentes a Banco.

                                   Perguntou mais: quem era o responsável pela minha funcionária menor? Respondi que eram seus pais, que inclusive foram  pessoalmente solicitar o emprego para sua filha.

                                   A próxima pergunta do Juiz me fez perceber tudo. Perguntou-me se a moça era bonita. Respondi que sim e muito inteligente. Então o Juiz, aborrecido, disse-me:  tome cuidado comigo rapaz, você é muito esperto e enquanto ela estiver trabalhando na sua loja, você é o responsável por ela. Pode ir.

                                   Já estava saindo quando resolvi dar o troco e disse: Excelência, o senhor me desculpe mas, de um Juiz eu só quero Justiça. Fui saindo, confesso, com medo de receber ali mesmo, voz de prisão, enquanto o dono do cartório, que a tudo assistia, ficava estático e de olhos arregalados. Graças a Deus, o Juiz também ficou sem dizer uma só palavra e eu fui saindo, rapidinho, com medo de ser preso.

                                   Esse Juiz ficou conhecido na cidade de Óbidos, como Juiz casamenteiro pois fazia casar quem se atrevesse a  mexer com moça virgem , o que propiciou muitos casamentos que logo eram desfeitos, por não terem base sólida. Muitos casamentos foram compulsoriamente realizados, mas uma vez, o casamento não aconteceu como o Juiz pretendia. O fato deu-se da seguinte maneira.

                                   Certo dia, o Juiz mandou chamar um rapaz que morava no interior do Município de Óbidos, atendendo a queixa dos pais de uma moça jovem e muito bonita, também do interior do Município. Os pais da moça pressionavam para que ela fosse até o Juiz, pois, o seu namorado, o dito rapaz do interior, havia avançado o sinal.

                                   O Juiz, com toda sua autoridade, aguardava o rapaz na sala do cartório, em companhia da moça e de seus pais. O rapaz (namorado) já sairia do cartório casado. Chega o rapaz, que chamava atenção por ser muito feio e, diante da moça, que parecia uma boneca, ficava mais feio ainda.

                                   O Juiz então, autoritariamente pergunta ao rapaz se ele havia mantido relações sexuais com aquela jovem, menor de idade. De bate-pronto, o interrogado responde que sim e diz mais: fiz amor com essa moça, fui o primeiro homem da vida dela e todas as vezes que fazíamos amor, eu pagava um mil cruzeiros.

                                   O Juiz, surpreso e atordoado, perguntou para a moça se era verdade que recebia dinheiro após a relação sexual. Ela, ingenuamente respondeu que sim, mas considerava aquele dinheiro como presente e não como pagamento. O rapaz, aproveitou o momento, e repetiu que comprava o sexo, o que caracterizava prostituição (não existia o ECA- Estatuto da Criança e do Adolescente).

                        Diante dessa situação, o Juiz, com raiva, expulsou todos de sua sala, e depois dessa lição, começou a ser mais comedido na promoção de casamentos .

                        Ambos, o rapaz e a moça, tinham bastante recursos financeiros e realmente gostavam um do outro, tanto que continuaram a encontrar-se e, algum tempo depois, de livre e espontânea vontade resolveram casar, COM O CERIMONIAL DE CASAMENTO FEITO PELO MESMO JUIZ .

Tiveram filhos e continuam casados até hoje (1994- data em que o livro foi lançado), e tudo indica que são muito felizes".

 

 Até o Próximo Episódio.

 

 

 

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